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  Três horas. Três horas é sempre muito tarde ou muito cedo para o que se quer fazer. Um momento da tarde bastante peculiar. Hoje está intolerável.
Um sol frio clareia a poeira das vidraças. Céu pálido, mesclado de branco. De manhã os córregos estavam congelados.
Faço uma lenta digestão, perto do calefator; sei de antemão que será um dia perdido. Não farei nada de bom, a não ser talvez ao cair da noite. É por causa do sol; ele doura vagamente as brumas brancas, sujas, suspensas no ar, por cima do canteiro de obras; penetra em meu quarto, muito louro, muito pálido, espalhando em minha mesa quatro reflexos baços e falsos.
Meu cachimbo é revestido de um verniz dourado que de início atrai o olhar por uma aparência de alegria: quando se olha para ele, o verniz se desfaz, e fica apenas um grande rastro esmaecido sobre um pedaço de madeira. E é tudo assim – tudo -, até minhas mãos. Quando faz sol, o melhor seria ir me deitar. Mas dormi como uma pedra a noite passada e estou sem sono.
Agradava-me muito o céu de ontem, um céu estreito, negro de chuva, que se encostava às vidraças como um rosto ridículo e comovedor. O sol de hoje não é ridículo, muito pelo contrário. Sobre todas as coisas que amo, sobre a sucata do conteiro de obras, sobre as tábuas apodrecidas da paliçada, cai uma luz avara e moderada, semelhante ao olhar que lançamos, após uma noite sem dormir, às decisões tomadas no entusiasmo da véspera, às páginas que escrevemos sem rasuras e de um só fôlego. Os quatro cafés do Boulevard Victor-Noir, que resplandecem durante a noite lado a lado e que são muito mais do que cafés – aquários, navios, estrelas ou grandes olhes brancos-, perderam sua graça ambígua.
Um dia perfeito para uma introspecção: essas frias claridades que o sol projeta, como um julgamento sem indulgência, sobre as criaturas, entram-me pelos olhos; estou iluminado por dentro por uma luz empobrecedora. Tenho certeza de que bastariam quinze minutos para que eu atingisse a suprema repugnância de mim mesmo. Muito obrigado. Não estou interessado nisso.Também não relerei o que escrevi ontem sobre a estada de Rollebon em São Petersburgo. Permaneço sentado balançando os braços, ou então escrevo sem entusiasmo algumas palavras, bocejo, espero o cair da noite. Quando estiver escuro, os objetos e eu sairemos do limbo.

Amo esse trecho do livro A Náusea do Sartre, um jeito tão poético de mostrar como o aprofundamento do olhar pode ser incômodo e revelador. Dependendo do momento em que nos encontramos pode ser realmente doloroso ver o verniz se desfazendo… porém há também a possibilidade de encontrar maravilhas escondidas…

E você prefere esperar o cair da noite ou mergulhar na desmistificação que o sol nos oferece?

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