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Vestimos diversas faces em nosso dia-a-dia.

A face que mais gosto de vestir é a da Monitora de dança. Já faz anos deixei de ser bolsista na escola de dança de salão, mas vira e mexe incorporo essa persona. É algo involuntário, geralmente luto contra, mas sempre escapa algo como: isso mesmo, certinho, se você fizer desse jeito fica melhor… e assim por diante.

Hoje faço aula de rockabilly com o meu querido Besouro – companheiro, namorado, parceiro indispensável – e mesmo sendo aluna e não conhecendo tão bem os passos essa postura sempre surge nas aulas, tanto que já pensaram que eu era uma das monitoras. 

O mais interessante é ver como essa postura influencia meus relacionamentos,  de vez em quando me ajuda bastante. Com meu pai tem sido ótimo, ele faz aula de dança de salão com a minha mãe há 2 anos, eu não acompanhei o progresso deles e imaginava que ele fosse o maior perna de pau. Eles faziam duas aulas por semana, minha mãe só queria fazer uma, mas ele sente a necessidade de duas, então lá fui eu tapar buraco. Faz duas semanas que comecei a ir com o papito em uma das aulas, temos muitas ainda pela frente. Ele dança três ritmos – salsa, bolero e gafieira – nos quais eu já tenho uma base muito boa. No começo estava difícil de entender a condução dele, passados alguns minutos tudo ficou mais fácil, a Monitora entrou em ação e os passos começaram a sair. Quando a professora elogiava ele falava “não fiz nada de mais, ela vai sozinha” e eu respondia “só vou se me conduzem e você está conduzindo direitinho”, o que falei com mais frequência? “Está certinho, só falta um pouco mais de segurança”. Eu não menti, ele me surpreendeu. Apesar de diversas dificuldades para nos relacionarmos, naquele momento nos entendemos e nos comunicamos, não necessariamente com palavras, na maioria das vezes com passos. 

Mas a Monitora nem sempre aparece quando danço. Em uma das primeiras noites que saí pra dançar com meu amor, fiquei corrigindo-o em cada pequeno detalhe e me sentindo frustada por não conseguir fazê-lo entender o que eu queria. Resultado: ele ficou nervoso e começou a errar várias coisas que não tinha errado antes, a cada correção mais erros, e eu comecei a me sentir culpada. Eu estava atrapalhando ele e não ajudando. Foi aí que percebi, eu era a Namorada Chata naquele momento, não estava querendo ajudá-lo, mas sim moldá-lo. Depois de perceber isso, reverter o processo foi fácil: pedi desculpa e o chamei pra beber algo e relaxar um pouco antes de voltar a dançar. Não encarnei a Monitora, com ele isso é impossível, tem muita intimidade, apenas voltei a ser a Parceira e foi o suficiente.

Gosto dessa persona por um motivo: ela está sempre disposta a ajudar; sorri para dar segurança a quem está dançando com ela; dá toques para ajudar, mas não muitos se não acaba atrapalhando; é humilde, simpática e divertida; ela precisa se conectar ao outro, sem isso seria inútil. Gostaria de ter uma pessoa assim sempre do meu lado, infelizmente ela só surge quando estou dançando.

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